PORQUE LEMBRAR-SE DELES?


Hoje, mais uma vez, comemoramos o "21 de Maio", dia dos nossos compatriotas que tombaram. A vida que eles deixaram de ter não se deveu aos seus interesses privados, mas sim, em nome de uma causa e valores superiores. Pensando apenas neste altruismo colectivo, esses corajosos combatentes merecem todo o nosso respeito.

Mas, hoje celebramos esta data, simultaneamente, em dois estados emocionais opostos: um de tristeza e outro de alegria. Um sentimento de tristeza, porque, em tempos passados, o "21 de Maio" era recordado por cerca de cinquenta mil almas vivas nos centros dos refugiados de Cabinda de Tandu-Mpali, Kimbianga, Nfuiki, Nlundu Matende e Seki-Zole, na província do Baixo Congo da República Democrática do Congo.

É também uma comemoração feliz, porque, afinal, celebrar este dia consiste em enviar uma mensagem forte aos nossos entes queridos que, enquanto existir um habitante nos centros dos refugiados, esse habitante inclinar-se-à junto da memória dos nossos combatentes tombados, de modo a relembrar e reflectir sobre os sacrifícios inquantificáveis empreendidos em nome de uma causa que a história da altura considerava justa. Obrigado combantes, por terem sacrificado o bem mais precioso que os homens têm.

Não obstante a importância acrescida do "21 de Maio", a actual conjuntura em que ele é celebrado deixa alguns desafios acerca da continuidade desta prática que, desde logo, tornou-se como natural. O momento presente é caracterizado por clivagens nas orientações sobre o nosso destino. Nestas condições, será que vale a pena continuar a relembrar-se deles? Nós pensamos que, mais do que nunca, o 21 de Maio deve ser comemorado pelas razões que se seguem.

Primeiro, porque ninguém pode ser julgado pelas opções que tomou no passado, mesmo que no presente estas opções deixam de estar em conformidade com a vertente actual da história. Os compatriotas que tombaram não cometeram crimes de sangue ou outros males contra a humanidade, que os colocaria numa lista negra. Morreram por uma causa que, na altura, maioritariamente era tida como legítima. Que culpa têm eles devido a conjuntura actual tomar um rumo não previsto por eles?

Em segundo lugar, no ideal colectivo, é desonroso, por considerações de qualquer ordem, olvidar um passado com o qual nos identificávamos. Assim, os homens e mulheres que, em nome da comunidade, luturam por ideias tidas como nobres não podem ser votados ao esquecimento. Na história, existem muitos casos paradigmáticos. Tomemos apenas como exemplo a experiência portuguesa. O "Estado Novo" de António Oliveira Salazar é condenado por uma larga maioria da população portuguesa. No entanto, os militares ao serviço do "Estado Novo" nas colónias jamais foram infamados. É com base nessas considerações que desejam transladar os restos mortais dos seus entes tombados nos territórios de então ultramar português.

Mais ainda, os valores ancestrais de respeito pelos mortos, que todos heradamos, nos impelem a pensar neles. Quem entre os vivos desejaria que o lugar onde repousam os seus entes queridos designadamente, pai, mãe, tio, irmão, irmã, nomarado ou namorada fosse sempre profanado? Quem desejaria que se deitasse frequentemente fogo nas as campas dos seus entes queridos? Que o capim e a falta de cuidado destroem os registros físicos dos locais onde descansam as pessoas que marcaram a sua existência?

Por isso, todo natural de cabinda, seja qual for a sua orientação política, religiosa e ideológica tem como um imperativo moral honar os nossos irmãos tombados. É pois a única forma que temos de corresponder aos sacrifícios que fizeram por um ideal que todos acreditavamos. Dignifiquemos os nossos entes queridos tombados, porque os objectivos pelos quais luturam eram também nossos. Pensemos nestes valentes corrajosos, porque a história que eles fizeram é também nossa. Cuidemos dos lugares em que os seus restos mortais jazem em paz, porque a nossa identidade actual em nehuma forma pode desligar-se do nosso passado.

Esperemos que o sentido de responsabilidade e que em nome de valores superiores, todos naturais de Cabinda, independetemente do local em que se encontrarem, reservem um minuto de silêncio em honra dos nossos irmãos que partiram em nome de um interesse comum.



Associação dos combatentes tombados em Cabinda

E-mail: memoriacabindanet@gmail.com



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